dissonância
desarmonia
desligada
desabada
tão ímpar
tão triste
tão partida
tão desfeita
tão sem razão
desarticula(ção)
DOLL COCO avatar
texturas: joesistah on flickr
Eu dizia-te que voltaria, sempre. Dizia-te como se fosse verdade, porque era. E todos os dias me lembrava de regressar, às vezes muito cedo de manhã, às vezes a meio do dia, por vezes de noite. E tu perguntaste uma vez se seria assim para sempre. Uma palavra, um poema, um qualquer sinal desses em que ninguém repara, mas que tinha a forma de amor estampada em cada rabisco breve, apenas para ti.
Nunca escrevi a palavra não nas perguntas que me fazias. E ainda assim partiste.
Um dia cheguei e não havia sequer uma rosa à minha espera. No dia seguinte já quase não sentia o teu cheiro, nenhuma marca, o meu corpo a ficar invisível na tua memória. Tudo tão depressa, tudo tão de cortar a respiração no intervalo entre ser e me apagares e já não ser. Primeiro sim, tão depressa depois o não. E ainda assim regressava à hora marcada para te espreitar no silêncio de uma palavra que desejava fosse verde e me fizesse acreditar que voltarias. Dias, meses, anos. Anos, acreditas? Tudo o que te prometi fiz. Enviei-te tantas flores, tantas e tantas vezes te esperei à porta de nada, parecendo que era minha uma pétala caída das tuas mãos. Mas eram dela. Eram sempre dela todos os diamantes espalhados no caminho. Para mim ficava o sonho partido feito de nenhum sapato de cristal, nenhuma dança, sequer fuga à meia noite, todo preenchido com um beijo cheio de despedida dentro. Ficava o sonho inteiro contrário a tudo isso. Só.
Um dia passei pelo dia, acho que ia triste e cansada, ou alguém me chamou, ou alguém me abraçou, e quase me esqueci de soprar um beijo à tua janela. Quase. Recuei dois passos e cumpri o ritual de te visitar com sombras nos olhos. No dia seguinte, e no outro, faltei ao encontro, de propósito, zangada com a falta de luz na tua rua, mas regressei a correr pensando que ouvira passos, que estavas a chegar e que na chegada finalmente voltarias a ser no meu ninho.
Devagarinho, vou-me desabituando desse fugir e voltar, desse morrer e regressar, empurrando para fora de mim a promessa, o desejo, a lua. Tudo o que nunca me pertenceu. Acho que preciso de um abraço, mas já não vai ser o teu.
Sabes?
Tenho medo de, um destes dias, me lembrar mesmo de me esquecer de ti. Imagino que chorarias se não me visses chegar, só para acreditar que tenho um lugar cativo na palavra vazio que transformei em companhia, que transformei em pesar.
Tenho medo que recordes o que prometi e que um dia, finalmente, te entristeças com a minha ausência de sede, mesmo à beirinha de ti e da água que deixaste de me dar.